Cultura

11 de agosto de 2017 - 18h38

Para além do mercado, o público move o cinema venezuelano

Divulgação
Cena do filme "La Distancia mas Larga" Cena do filme "La Distancia mas Larga"

Pelo Malo, filme venezuelano lançado em 2014, conquistou o público dentro e fora da Venezuela, ganhando inúmeros prêmios quando foi lançado, entre eles o festival San Sebastian. O foco da história está numa pequena família da classe trabalhadora, especialmente na figura de um menino negro de 9 anos, Junior, que quer alisar seu cabelo por considera-lo “ruim”; seu sonho é sair bem na foto da escola. Esse detalhe serve como ponto de partida para discutir o mal-disfarçado racismo de sociedades mestiças, como a venezuelana e a brasileira; além disso, há ainda a relação conturbada do menino com a mãe, seca e critica por acreditar que seu filho é afeminado e que isso resultará em problemas futuros. “Eu quis fazer um filme sobre a Venezuela, sobre este lugar polarizado, onde as diferenças políticas e sociais são tão fortes que invadem a intimidade da família, dos amigos, dos amantes. Este é o produto da falta de respeito ao outro. E a Venezuela é um lugar muito político, mas o conflito não se limita ao país, ele é universal”, conta a diretora.

O machismo e a homofobia são temas abordados pelo filme de maneira sutil mas arrebatadora. “Eu queria trabalhar duas coisas em especial: o respeito às diferenças, e como a falta deste respeito pode gerar violência. Eu quis buscar essa violência nos olhares, nos gestos. Não era a violência das armas, e sim toda aquela que existe antes de se pegar numa arma” contou a cineasta Mariana Rondon, responsável pela sensível e incisiva crônica da Venezuela nos dias atuais, em entrevista para o Adorocinema, na época do lançamento do filme.

Pelo Malo não é o único expoente do cinema contemporâneo venezuelano. Lançado em 2005, "Secuestro Express", filme de Jonathan Jakubowicz, foi chamado pela crítica da época de “O Cidade de Deus venezuelano”. O filme reuniu não-atores e foi filmado em um bairro pobre, mostrando a violência de uma cidade partida; tornou-se, naquele ano, a maior bilheteria da história do cinema do país, para uma produção nacional: “a ruptura geográfica entre os que vivem no bairro pobre e os que moram na cidade”. “O filme não toma partido de ninguém, mas mostra seres humanos tentando sobreviver em uma sociedade decomposta. Não são bons nem maus, mas sim pessoas de carne e osso" disse o diretor em entrevista para a Folha de São Paulo.

“Lo Que Lleva el Rio”, de Mario Crespo, longa que traz uma história de cisão e conflito quando a jovem índia Dauna decide estudar e, consequentemente, renunciar às suas raízes, foi considerado pela crítica “uma mostra do despontamento da boa fase no cinema venezuelano”, em 2015. Há diálogos em espanhol, mas o idioma predominante é o warao. No mesmo ano, "Desde allá", de Lorenzo Vigas, venceu o Leão de Ouro em Veneza; o drama conta a história de um amor homossexual reprimido.

Em 2016, o filme venezuelano “El Amparo”, filmado em 1926, do diretor Rober Calzadilla, ganhou o Prêmio de Melhor Filme na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A obra retrata a história real de dois pescadores que são acusados de serem guerrilheiros pelo exército venezuelano e mantidos sob custódia.

Apesar do sucesso parecer recente, o cinema começou a marcar presença na Venezuela no final do século XIX. Em 1896 começam a ser exibidos os primeiros filmes nas cidades, e o som chegou em 1930. A Bolívar Filmes foi fundada nos anos quarenta e, em 1951, La Balandra Isabel llegó Esta Tarde, de Carlos Hugo Christensen, ganhou o prêmio de melhor fotografia no Festival de Cannes. Em 1959, o documentário Araya, de Margot Benacerraf, obtém o Prémio da Crítica no mesmo festival.

Nos anos 70, o cinema venezuelano tem um grande boom, que ficou conhecido como “O Novo Cinema Venezuelano”. Os filmes possuíam forte carga social, visto que a luta armada teve seu auge nos anos sessenta; o Cinema Novo Brasileiro, inclusive, também estava em ascensão.
“Os cineastas daquela altura tinham necessidade de contar o país, o cinema estava ligado àquela corrente que se preocupava, olhava e colocava à vista de todos o setor mais desprotegido ou marginalizado da sociedade. A delinquência, a pobreza, a prostituição, a crise social, todas fizeram do trabalho cinematográfico uma crônica, uma moral, uma política. Essa maneira de fazer deixou uma marca notável que se perpetuou sobre futuras produções durante algumas décadas” conta o jornalista e escritor venezuelano Fedosy Santaella. Román Chalbaud foi um diretor ícone da época, retratando a miséria e a marginalidade urbana em Caracas.

Devido à crise econômica e, segundo o jornalista, “um motim contra o cinema nacional, visto que as bilheteiras ultrapassavam o cinema vindo de fora que, ameaçado, planejou ruína do adversário”; mas o cinema nacional continuou forte. E, os anos 90, “são os anos de Tierna es la noche, de Leonardo Henríquez; de Golpes a mi puerta (1993), de Alejandro Saderman; Una vida y dos mandados (1996), de Carlos Arvelo; de Huelepega, de Elia Schneider. Com o objetivo de enfrentar a crise orçamental criou-se o chamado G3, grupo de produtores da Colômbia, México e Venezuela, que procurou a colaboração no financiamento e a possibilidade de realização, distribuindo os custos por cada país”.

Nos últimos anos, o público venezuelano tem lançado cada vez um olhar mais positivo para as produções de seu próprio país. Parte desse ressurgimento deve-se a Lei do Cinema, implantada por Hugo Chávez em 2005, que reforça a presença de um organismo como o Centro Nacional Autónomo de Cinematografia (CNAC), criado em 1994, promovendo fortemente o financiado de projetos independentes.

“O que é certo é que o cinema destes anos talvez pretenda captar mais a atenção do público; entreter e contar com delicadeza, até mesmo trabalhando os gêneros, atrevendo-se em áreas que lhe eram alheias, como a comédia romântica, o desporto e até o terror e o épico”, continua
Santaella.

Em 2014, durante uma entrevista na TV, o presidente da Fundação estatal venezuelana, Villa do Cinema, José Antonio Varela, afirmou que existe um mito em torno de que o cinema é um grande negócio e, portanto, precisa de grandes investimentos, como acontece em Hollywood; mas que na Venezuela, por exemplo, uma forte política de estado serviu para impulsionar a sétima arte. Ele disse ainda que essa política começa com o nascimento do Ministério da Cultura e com uma concepção do governo revolucionário do cinema como uma expressão cultural popular. Com isso, ocorre a criação de novas instituições e o fortalecimento de outras existentes, o apoio à formação, realização e a investigação ajudaram a obter essa viragem fundamental ao desenvolvimento da sétima arte venezuelana.

Após o sucesso do filme El Chico que Miente (O Garoto Que Mente), selecionado para o Festival de Berlim de 2011, surgiram reportagens abordando o renascimento do cinema venezuelano; este, impulsionado pelas novas políticas de incentivo e produção cultural do governo de Hugo Chávez, declaradamente voltadas para "o rompimento com a ditadura dos filmes norte-americanos". Diego Sequera, cineasta entrevistado pelo Opera Mundi em 2012, cita a caída sensível do cinema local nos anos 90, devido à colonização estadunidense pela sétima arte, com o boom hollywoodiano.
Chavez funda, em 2006, um empreendimento que ficou conhecido como Cinecittà venezuelana. O investimento surgiu quando o governador descobriu que "oito grandes estúdios de Hollywood dividem 85% do cinema mundial e representam ao menos 94% da oferta cinematográfica na América Latina". Apesar de criticado por alguns diretores, segundo Sequera “muitos opositores do governo também trabalham lá. Adversários abertos do regime, que têm liberdade total para criar”. A Venezuela tem diversas produções de caráter histórico, abordando a independência do país diante da colonização espanhola, e Miranda Regressa, produção pertencente a esse espectro, foi um dos filmes produzido na Cidade Cinema.

Sobre os incentivos governamentais voltados para a sétima arte, a diretora Mariana Rondon reafirma a importância da Lei do Cinema: “ela permite que o Centro Nacional Autônomo de Cinematografia seja de fato autônomo, e que seja usado o dinheiro dos impostos. E tem muito dinheiro disponível, porque existem impostos de todo o setor audiovisual: televisão, publicidade, produtores de cinema, exibidores de cinema...essas empresas ganham muito dinheiro. Isso nos permite ter um comitê plural que escolhe os filmes, e os jurados vêm do governo, do cinema, até de fora do país. Mesmo que haja brigas, este é o espaço mais plural que possa existir. Além disso, a lei obriga os exibidores a manterem os filmes venezuelanos por pelo menos duas semanas em cartaz. Durante oito anos, foi algo difícil, mas hoje, os filmes nacionais são os mais vistos no país. Todos ganham dinheiro: produtores, distribuidores e exibidores. O cinema nacional tornou-se um bom negócio. Agora esperamos que o público fique cada vez mais exigente conosco, e que nós façamos filmes cada vez melhores”.

Por fim, está provado que o cinema venezuelano é bem inserido no contexto latino-americano da sétima arte. Apesar de seus altos e baixos, ele mostra que começou e pretende continuar a produzir filmes políticos e sociais, mas também sensíveis e sutis; enfim, obras que retratem e alcancem o povo.








* Alessandra Monterastelli é estagiária no Portal Vermelho

Do Portal Vermelho 

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