20 de Abril de 2017 - 16h44
Divulgação/ Pequeño Editor
Ilustração da história infantil ‘El Secreto de Borges’ de Diego Alterleib

Ilustração da história infantil ‘El Secreto de Borges’ de Diego Alterleib

A história para crianças que Jorge Luis Borges nunca escreveu


Jorge Luis Borges inventou uma história infantil. Nunca a escreveu, mas a história sobreviveu ao esquecimento graças à memória de uma das crianças que há 36 anos o ouviu com atenção infantil no apartamento do escritor no centro de Buenos Aires. Essa criança é hoje o adulto Matías Alinovi. Estudou física e também é escritor. Por isso foi a pluma por trás do livro O Segredo de Borges, que a Pequeño Editor lançará no fim de abril, durante a Feira do Livro de Buenos Aires.

Por Federico Rivas Molina


Diante de uma bandeja de “balas importadas”, Alinovi e seus colegas da 4ª série da escola religiosa San Marón ouviram o segredo da longevidade de Borges, uma história que improvisou na hora para um auditório pouco comum a sua rotina de estrela das letras argentinas. O livro de Alinovi recupera aquele relato oral a partir do olhar de um menino de nove anos, mas é muito mais do que isso.

A primeira coisa que Borges revelou às crianças foi que antes da chegada delas tinha dois medos. “O primeiro era que fôssemos, porque não sabia sobre o que falar com as crianças da 4ª série. Mas o segundo medo, que era mais forte do que o primeiro, era que não fôssemos. Não se entendia bem o que dizia”, escreve Alinovi. A partir daí começou o feitiço.

“Vou contar a vocês como pude viver tantos anos”, disse Borges às crianças que o ouviam sentadas no chão em semicírculo, enquanto “olhava para cima, mas não via, e a cortina atrás da poltrona verde era muito branca e muito bonita por causa da luz do sol”. E o escritor revelou-lhes o segredo das tartarugas que viviam no poço de onde tirava a água que bebia na casa de sua infância, no bairro de Palermo. “Disse que ele, um dia, se pusera a pensar e percebera uma coisa: a água que havia tomado quando era criança não era água, mas água de tartaruga. E como as tartarugas viviam muito, ele tinha vivido muito”, escreve Alinovi no livro, ilustrado em tons negros e verdes por Diego Alterleib. O texto é simples e recupera os bastidores daquele encontro, com detalhes tão ricos quanto a própria história.

Porque a rota que leva as crianças ao apartamento de Borges merece um livro por si só, e assim o entendeu Alinovi, que conta a história que guardou na memória por quase quatro décadas como uma história infantil. “Lembro-me bem daquele dia, mas não sei se me lembro porque me lembro ou porque revisitei muitas vezes a cena”, diz Alinovi. “Estava com o meu amigo José Manuel na saída da escola, um dia de tarde, e me lembro bem o momento em que ele me disse ‘hoje eu vou à praça, mas vou com Borges’. A sensação que quis transmitir é que esse Borges, o Borges que ouço de José Manuel, era um dado completamente neutro. Digo isso com os termos de [Ernesto] Laclau, era um significante vazio. Ali operou uma coisa muito bonita, porque era um significante vazio no qual eu coloquei algo, e o que coloquei nesse significante foi o rosto de José Manuel, que me disse ‘que chatice, não vai ser tão bom ir à praça”, diz. A partir daí, as crianças brincam com a história desse Borges “sem significado” e com a pressão dos adultos, conscientes de que estavam diante de algo que merecia atenção.

O que carrega o significante vazio do Alinovi criança? “O primeiro passo foi minha mãe. Quando eu contei a ela que José Manuel ia com Borges à praça ela disse, e eu lembro o tom maternal que usou, ‘não Matías, olha, Borges é um escritor muito famoso. José Manuel deve ter ouvido o nome por aí e te disse isso’. Mas José Manuel não estava mentindo. O menino era neto de Fanny, a governanta de Borges por mais de 40 anos e naquela época morava na casa de Borges. Na qualidade de inquilino tinha algumas obrigações, como acompanhar Borges à praça se sua avó pedisse.

O passo seguinte foi na escola. “A segunda coisa que me surpreendeu como criança foi a atenção em relação a José Manuel, que era um garoto menosprezado pela professora, uma freira. No dia seguinte ela se ocupou particularmente dele dizendo-lhe ‘mas como pode ser isso, menino?’ José Manuel respondeu, ‘é que eu moro com Borges’, e isso foi uma mudança impressionante na forma como a professora o tratava. Lembro que ela disse, ‘bom, você poderia perguntar a ele se as crianças da 4ª série poderiam ir à sua casa?’. No dia seguinte, José Manuel trouxe uma mensagem: “disse que sim’”.

Então foi preciso organizar a visita, especialmente porque tinha de estar sob o controle da escola. A professora pediu que as crianças preparassem as perguntas que quisessem, mas logo teve de “discipliná-las”. “Maximiliano queria perguntar quantas vezes tinha ganhado o prêmio Nobel. E Liliana, outra colega, queria perguntar quantas vezes havia se casado. As perguntas eram geniais. Crianças que não sabem nada apontaram e acertaram dois tiros no eixo de flutuação de Borges: o Nobel e as mulheres”, diz Alinovi.

Borges morreu em 1986, cinco anos depois daquele encontro com os estudantes da escola do bairro. Alinovi não voltou a vê-lo, mas guardou o registro da história que ouviu no apartamento da rua Maipú graças a um pequeno gravador que sua mãe lhe deu para a ocasião. O áudio original foi perdido sob alguma gravação descuidada, mas permitiu que Alinovi rememorasse várias vezes a conversa com Borges. Durante anos, a história deu voltas na cabeça do autor, até que ele encontrou a forma mais adequada de contá-la. “A única justificativa dessa história é recuperar a extraordinária capacidade de Borges para improvisar uma história diante de crianças da 4ª série. Porque ele improvisou. Tenho a sensação de que a tarde caiu em cima dele, Fanny deve ter dito ‘lembre-se que hoje vêm as crianças’, o sentaram e ele inventou uma história”, conta. A única história infantil do autor de Ficções não está no papel, mas sobreviveu na memória, onde venceu o esquecimento. Uma batalha digna de Borges.


Fonte: El País




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