Cultura

20 de março de 2017 - 17h39

Joan Edesson: Essa sede pode me matar


Foto: Diego Galba
   
Menino, perdi a conta de quantas vezes meu pai nos acordou pela madrugada, a mim e meus irmãos, para enfileirar-nos na beira de uma cacimba e pacientemente esperarmos para encher uma lata d’água, esperando intermináveis minutos até que o chão vertesse água suficiente para uma pequena coité. Completar uma lata, a depender da época do ano, levava vinte, trinta minutos, às vezes mais. Tinha que ser logo pela madrugada, e ainda assim enfrentávamos a fila de homens, mulheres e meninos, na mesma penitência e na mesma espera.

Cresci ali, naquele lugar quase sem nome, meio escondido no mapa, só presente nele porque o apito do trem cortava o nosso sonho e os nossos sonhos em busca do Juazeiro do Norte, trem da feira, trem de romeiros, curtidos da seca quase todos eles.

A seca deixa marcas na gente. Vem dela, provavelmente, esse meu jeito áspero, que por vezes arranha o carinho dos que me rodeiam. Vem dela, provavelmente, essa economia de ternura a que me acostumei, essa sovinice de bem-querer, essa quase ausência de sorrisos. Mas vem dela também, provavelmente, essa dureza, essa resistência à adversidade, esse jeito bruto de brigar com a vida. Sou filho da seca. Para o bem e para o mal, sou filho dela.

Já vivi muitos períodos de estiagem. E estamos vivendo mais um. É uma das piores secas que já vi. A média de chuvas anual no Ceará é de 800,6 mm. Desde 2012 que chove abaixo da média, bem abaixo, com a maior ocorrência em 2016, com 567 mm. De janeiro de 2017 até agora estamos abaixo da média histórica.

Dos 153 açudes monitorados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos há 80 deles com volume inferior a 30%. Os quatro maiores açudes do Ceará estão praticamente secos. O Castanhão tem 5,71% da sua capacidade, o Orós tem 9,81%, o Banabuiú tem 0,63% e o Araras tem 8,87%. Hoje, todos os açudes do Ceará juntos estão com apenas 8,9% da sua capacidade.

Ontem foi dia de São José, e os olhos dos sertanejos esperaram uma gotinha de chuva que fosse. Quase não choveu, um golpe grande na esperança. No Ceará, desde pequeno, aprendi que as chuvas chegam primeiro no Piauí. A gente fica esperando pelas notícias. Se chover no Piauí, dentro em pouco a chuva chega por aqui. Ontem, 19 de março, a gente procurou saber notícias da Paraíba. Disseram-nos que a água chegou em Monteiro, terra de Severino Lourenço da Silva Pinto, conhecido como Pinto do Monteiro, um dos maiores repentistas que já vi cantar.

Disseram-nos que a água veio do velho Chico.

Acorreu gente do nordeste inteiro, feito uma enchente, pra se banhar ontem naquelas águas do velho Chico, e pra saudar Lula e Dilma, responsáveis por aquele feito. O povo sertanejo foi abraçar Lula e Dilma. Quando o ilegítimo esteve por lá, dias atrás, nem para vaiá-lo o povo se deu ao trabalho de ir. Como se dissesse que aquele impostor não merecia sequer uma vaia. Mas ontem o povo foi, uma multidão, uma enchente de pessoas.

Mesmo querendo, eu não pude ir. Fiquei aqui espiando o céu, torcendo por uma gotinha de chuva que fosse. Fiquei aqui esperando as notícias de Monteiro. O que me veio de lá foi esperança, uma esperança boa danada. Esperança que as águas do velho Chico, mais dia, menos dia, cheguem ao Ceará, pra aliviar um pouco a nossa sede. Mas a maior esperança mesmo que aquela multidão em Monteiro me deu, foi a esperança de derrotar o golpismo e reconquistar a democracia.

Ontem foi dia do padroeiro das chuvas. Quem sabe não tenha sido também o dia em que a democracia, regada pelas águas da transposição, tenha lançado de novo seus primeiros verdes galhos pelo ar.


 
Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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