20 de Março de 2017 - 15h36

Carne Fraca: O papelão em nome do espetáculo


A espetacularização midiática da ação do Ministério Público e da Polícia Federal contra frigoríficos na chamada Operação Carne Fraca foi baseada em dois anos de apuração e a perícia em alimentos produzidos por frigoríficos em apenas um caso. Segundo fontes citadas pela Folha de S. Paulo, a análise foi feita em produtos da Peccin Agro Industrial, empresa curitibana responsável por alimentos da marca Italli.


 

 

Mas não foi coincidência que a operação tenha sido deflagrada no aniversário de três anos da Lava Jato. O próprio delegado da operação Maurício Moscardi Grillo - mesmo que disse que "perdemos o timing para prender Lula" - confirmou em coletiva de imprensa que a data foi escolhida com o objetivo de chamar a atenção da sociedade para o que ele chama de “descaso que temos na área de corrupção sistêmica e endêmica no nosso país”.

No relatório divulgado pela PF, de mais de 300 páginas, há descrição de indícios de corrupção entre empresas e servidores do Ministério da Agricultura e de irregularidades cometidas pelos frigoríficos na produção de alimentos, apuradas a partir de grampos e depoimentos.

Um exemplo dessa situação foi o caso de uma gravação telefônica interceptada pela PF que teria revelado que o uso de papelão em carne moída em uma de suas unidades da BRF, dona da Perdigão e Sadia, uma dos maiores conglomerados do país.

"São dois anos de análise de fatos, desde utilização de papelão por essas empresas - até essas que já citei de grande porte (JBS e BRF) - para colocar esse tipo de situação em comidas, pra fazer enlatados, e outras coisas que podem prejudicar a saúde humana. (...) Tudo isso mostra que o que interessa para esse grupo é o capitalismo, é o mercado, independente da saúde pública", disse o delegado Maurício Grillo.

A PF disse que empresas envolvidas no esquema de corrupção "usavam papelão para fazer enlatados (embutidos)". Mas em uma das ligações telefônicas citadas no relatório da Polícia, funcionários da BRF falam sobre o uso de papelão na área onde produzem CMS (carne mecanicamente separada, comumente usada na produção de salsichas).

Na transcrição do áudio, o funcionário diz: "O problema é colocar papelão lá dentro do cms também né. Tem mais essa ainda. Eu vou ver se eu consigo colocar em papelão. Agora se eu não consegui em papelão, daí infelizmente eu vou ter que condenar".

Luiz Fossati (gerente de produção da BRF), responde: "Ai tu pesa tudo que nós vamos dar perda. Não vamos pagar rendimentos isso".

"Na gravação que ouvi, duas pessoas falavam em entrar com uma embalagem de papelão na área limpa. Evitar papelão nessas áreas faz parte das boas práticas de manufatura, mas não fazer isso não é o mesmo que usar papelão dentro da salsicha", disse o médico veterinário e especialista em carnes da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Pedro Eduardo de Felício, em entrevista à BBC Brasil.

"Acho muito difícil isso ter acontecido. O que acontece é que tem áreas dentro das indústrias que são chamadas de áreas limpas, onde não podem entrar embalagens secundárias, como caixas de papelão", diz.

Para o advogado criminalista Carlos de Almeida Castro, o “Kakay”, história foi um erro grosseiro de interpretação a quem coube interpretar os grampos telefônicos. “Não resta dúvida, nem para os mais incautos, que foi uma subleitura das interceptações telefônicas. Maldosa. Criminosa. Dirigida. É evidente que falavam da embalagem da carne, e criminosamente exploraram como sendo colocar papel na carne moída. Ridículo", enfatizou. Segundo ele, "a força da imprensa irresponsável fez prevalecer esta hipótese para milhões".

“No caso concreto, não sei quem errou, mas penso que a PF, o MP, o Juiz, o Bispo, deveriam vir a público esclarecer o ‘erro’. O prejuízo moral, financeiro, econômico, e outros, não tem reparação. Não é só prejuízo as empresas, mas ao Brasil", reforçou.

O resultado é que a carne, consumida no país ou a exportada, foi colocada sob suspeita. A União, Europeia, Coreia, Chile e China já anunciaram a restrições da compra de produtos brasileiros.

A operação segue os moldes da Operação Lava Jato: lança suposições de uma investigação em andamento como se fossem fatos comprovados. O resultado disso é que no setor da indústria naval e de construção toda a cadeia de produção do setor está devastada, tendo o desemprego como o mais agravante efeito.

No caso da produção de carne no país, o processo já é monopolizado onde os pequenos e médios produtores integram essa cadeia produtiva. Quebrar as grandes significa quebrar esses produtores também.

Enquanto isso, os grandes veículos de comunicação tiveram seus horários nobres de publicidade recheados de informativos e notas de esclarecimentos das empresas envolvidas no caso. 


Do Portal Vermelho, Dayane Santos




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